As duas razões do emigrante - SWISS QUESTIONS
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As duas razões do emigrante

Imigrar é um processo. Não é decisão que se resolve do dia para a noite, mas, sim, um processo que toma um tempo longo da vida. Não sei muito bem se termina, mas ele tem um dia que começa.

Para mim, o processo de imigração não surgiu da insatisfação com a vida no Brasil. Diplomado em psicologia, mestre em educação, sempre tive uma vida de muito trabalho, mas muito boa. Com direito a shopping, cinema, carro, moto e boas trilhas no fim de semana, seja na serra do mar ou no sítio da família.

O processo de imigração surgiu como encantamento.

Read here in English!!!

Fizemos uma viagem em família para a China (Pequim, mais especificamente) na volta, paramos 7 dias na Suíça. Ficamos os 3 primeiros dias da viagem em Lucerna, ali fui contaminado por uma espécie de vírus. Voltei para a Suíça a passeio mais 5 vezes depois disso, sendo que, uma das vezes, fiquei aqui por dois meses consecutivos.

Passei a ter uma espécie de melancolia, uma saudade imensa daqui. Na verdade, me senti como se tivesse vivido a vida inteira na Suíça e estivesse passando um tempo no Brasil. Passava seis meses planejando a próxima viagem e, uma ou duas semanas viajando na Suíça. Ou seja, passava 12 meses por ano pensando e estudando a Suíça. Virei um ufanista.

A viagem para Pequim e para a Suíça foi em 2009. Em 2010, já havia visitado o país alpino mais uma vez e, em Setembro, protocolei meu pedido de cidadania suíça. O reconhecimento da cidadania demorou 4 anos para sair. Mas, em Março de 2014 recebi a carta da oficialização do meu registro como suíço. A cidadania foi estendida para a minha filha, sendo assim, em Julho de 2014, estávamos os dois com o passaporte vermelho.

Passamos a ser brasileiros e suíços.

Isso me deu livre trânsito pelos aeroportos do mundo. Afinal, apenas 3 ou 4 países exigem visto para cidadãos suíços. Mas, mesmo com essa liberdade, meu destino continuou sendo a Suíça. Mais especificamente a Suíça alemã, da região norte dos alpes até a divisa com a Alemanha.

Nesse período de 2009, quando conheci a Suíça, até 2018, quando emigrei com a família, tratei de planejar e estudar o país de destino:

– As línguas;

– Custo de vida:

                – Transporte;

                – Aluguel;

                – Saúde;

                – Alimentação;

                – Seguros;

                – Lazer;

                -Impostos e taxas.

– Leis;

– Trabalho;

– Diplomas;

– Estudo (para as crianças);

– Cidades;

– Cantões;

– História.

Quanto mais eu estudava, mais encantado com a Suíça eu ficava. Mas, foram 9 anos de planejamento, não foi um ímpeto mochileiro, não foi um desespero com a situação do Brasil, não foi um surto antipatriótico, não foram dívidas. Foi fruto do encantamento da relação entre um povo e a terra a qual pertencem e da qual cuidam.

Para explicar melhor.

A vida na Suíça, sempre repito isso nas minhas postagens, não é fácil. Como em qualquer lugar do mundo, a vida é acordar cedo, deslocar-se para o trabalho, e trabalhar até ficar esgotado. Igualzinho era no Brasil. Trabalho – dinheiro, dinheiro – contas. Claro, existem diferenças marcantes: a política aqui não está nos extremos; a economia aqui não está em baixa; a violência aqui é praticamente nula; os espaços públicos aqui são bem preservados.

Mas, o motivo do meu encanto com a Suíça não foi por aquilo que ela tem de melhor que o Brasil. Até porque, essas 4 coisas são as únicas coisas melhores do que o Brasil. Todas as outras coisas são muito melhores no Brasil: comidas, família, amigos, trabalho, amor, florestas, praia, música, pessoas, leis, família, amigos, família… O Brasil, com toda a corrupção e caos, é a 8ª economia do mundo e isso é fruto de sermos um povo foda em uma terra maravilhosa.

Se não houvesse a desordem causada pelas ilegalidades e a corrupção, o Brasil seria fácil a primeira economia do mundo e o primeiro em todos os rankings, escola, justiça e saúde. Mas, o que me encantou na Suíça não foi o contraste com o Brasil, não foram os dados comparativos. Foi uma relação mais íntima, mais visual e afetiva.

As paisagens da Suíça são alucinantes.

Como o país é muito pequeno e, de nordeste a sudoeste é cortado pelos alpes, que ocupam 60% do território e mais 20% do território é ocupado pelos lagos, as paisagens são absurdas. Morar em uma pequena cidade do interior da Suíça faz com que você tenha na vista da sua janela uma paisagem proporcional a morar e de frente para um cartão postal.

Até porque, os suíços sabem que as paisagens são absurdas e, cuidam para que a arquitetura e o crescimento das cidades sejam compatíveis com as paisagens e com a natureza dos arredores. Então, a praça da cidade, acaba sempre sendo um lugar com uma arquitetura ou com uma vista que reúna os olhos da comunidade.

Quase todas as cidades têm uma reserva florestal ao redor ou nas proximidades de seu centro. E, essas cidades são menores do que os bairros das cidades brasileiras, menores até que os conjuntos habitacionais e condomínios. Com isso, saindo da minha casa, que fica na rua com o nome da montanha que pode ser vista da frente da minha casa, caminho 5 minutos e estou na floresta.

Cachoeiras, colinas, árvores, trilhas e vistas magníficas, numa caminhada de 25 minuntos.

A montanhas estão há 20 minutos de trem da estação da minha cidade.

O lago está há 10 minutos de caminhada.

E, você pode não saber, mas eu adoro caminhar nas montanhas e nas florestas. Somado a isso, eu adoro fotografar. A Suíça tem violência quase zero e algumas das paisagens mais deslumbrantes do mundo há 20 minutos da minha casa. Saio de casa com a câmera no pescoço, zero de risco e um passe de trem.

Como resistir?

Não sei. Eu não consegui.

Claro. Não acredito que você, leitor, esteja realmente interessado em caminhar e fotografar a Suíça. E, nesse blog, não trato desse assunto. Para ler sobre isso, visita meu outro blog: www.grandefocal.ch

Aliás, bem pelo contrário. Aqui, escrevo sobre trabalho, impostos, leis e a vida séria na Suíça, não sobre meu hobby: caminhar e fotografar.

A maior parte dos brasileiros que conheci, emigraram em busca de uma vida melhor. Mas, se a vida aqui é tão ou mais difícil (se contarmos a língua) do que no Brasil, o que eles consideram ser essa vida melhor?

A vida melhor, buscada por brasileiros que emigraram aqui para a Suíça, é uma relação entre o esforço para se ganhar o sustento da vida e a vida obtida com esse sustento. Mas, principalmente, o comparativo entre os resultados dessa equação no Brasil e no lugar onde o imigrante se encontra.

Então, diferente do que aconteceu comigo, nem sempre o brasileiro residente na Suíça veio para cá por amor aos dialetos suíços, ou as montanhas da suíça. Mas, sim, porque, quando esse brasileiro analisou a qualidade de vida que poderia ter aqui e a que tinha no Brasil, o esforço de emigrar fazia sentido.

Então, essa equação:

Esforço para o sustento da vida/vida obtida com o sustento=QV

acaba empurrando as pessoas para os mais diversos lugares do mundo, aliás, nos últimos anos, muito menos para a Suíça do que para a França ou para a Alemanha, Canadá ou Nova Zelândia.

O comparativo entre o QV no Brasil e a QV em outros países acaba sendo gritante quando levamos em conta dois fatores:

1 – O que se pode adquirir para a vida com o salário mensal?

2 – Qual o risco de vida e a percepção de segurança na vida?

Uma rápida discussão sobre o primeiro fator:

O que podemos comprar com a renda mínima no Brasil não permite a subsistência mínima de um indivíduo, muito menos de uma família. E, mesmo com os programas de apoio à renda familiar não são o suficiente para que o indivíduo possa se alavancar ou alavancar a família. Então, quando pensamos no desenvolvimento dessa família ao longo das gerações seguintes, o esforço para que se alcancem as mudanças que refletirão em termo na qualidade da vida terão que ser gigantes e provavelmente infrutírferos.

A relação entre renda e custo de vida é injusta, não é possível crescer, quando muito, sobreviver ou só, perecer.

Nos países da UE, Estados Unidos e outros, a relação entre a renda e o custo da subsistência é mais justo (não muito mais, mas mais justo). Aquilo que se pode fazer para ter renda, as relações trabalhistas e, principalmente, as recompensas do esforço individual refletem-se muito facilmente numa renda transformadora ou potencializadora de transformação.

Ter um trabalho fixo e, em paralelo, vender o picolé na praia, a coxinha na estação e ou mesmo produtos de beleza em domicílio, permite a aquisição de uma renda justa. Uma renda que permitirá um usufruto qualitativo da vida e um pouco mais. Esse um pouco mais pode ou deveria ser investido em desenvolvimento.

Aqui na Suíça, pela altíssima competitividade do mercado de trabalho, estamos sempre investindo a pouca sobra em desenvolvimento: cursos de língua, cursos de aperfeiçoamento, atividades extras para as crianças…

Por outro lado, o segundo fator traz ganhos para a vida que, hoje no Brasil, não temos há muito tempo noção do que ele representa. A sensação de segurança permite o usufruto do espaço público ou do espaço comunitário, de forma ordenada e cooperativa para o lazer. Me deixe explanar rapidamente sobre isso.

Na Alemanha, hoje, a situação é a mais difícil dos últimos 40 anos. Desde o fim da segunda guerra mundial as coisas não são tão difíceis por lá. Os refugiados, em sua maioria mulçumanos, estão provocando mudanças drásticas no comportamento do povo alemão.

Mas, mulçumanos não roubam, não são violentos e, tirando alguns grupos minoritários que são amplamente repercutidos pela mídia, vivem suas vidas como quaisquer outros crentes: Trabalho-casa, casa-trabalho e muitas orações. Não causam um aumento nos índices de violência que possam ser considerados impeditivos para o exercício da vida no espaço comunitário.

Portanto, apesar das grandes mudanças provadas pela imigração em massa, os países da UE continuam oferecendo aos seus residentes uma sensação de segurança para a vida e para o patrimônio que, nós brasileiros já esquecemos o que é. Claro, sem tolices, a vida em grandes centros urbanos tem seus problemas em todos os lugares do mundo e, viver em pequenas comunidades (como eu) também tem seus incômodos.

Mas, de um modo geral, não se roubam igrejas, não se roubam pessoas, não se rouba praticamente nada. A criminalidade per-capita é baixíssima. Veja bem, ela existe. A violência existe. Mas, tem outra forma, tem outro discurso, tem outro carácter. Então, afeta muito pouco, ou não afeta (para nós brasileiros que temos outro nível de tolerância com isso) a sensação de segurança e o direito à vida, porque está restrita a lugares específicos ou a populações minoritárias específicas.

Com isso, parques, praças, florestas…lugares onde se pode exercitar o lazer gratuito, que nós perdemos no Brasil, por conta das praças tomadas por usuários de drogas, passam a ser uma possibilidade ótima. Aliás, aqui na Suíça, compartilhamos as churrasqueiras nos parques e praças, juntando crianças, famílias e vizinhos.

Passear deixa de ser ir ao shopping gastar. Passear, retoma um conceito do tempo do meu pai: ir até o centrinho, sentar-se em um banco e ver o movimento da cidade, o pôr do sol no lago, as crianças jogarem bola na pracinha etc.

A relação entre a qualidade de vida obtida com a fruto do esforço é o que move a emigração do brasileiro para fora do país, a sensação de segurança o que mantém o brasileiro fora do país.

Muitas vezes eu ouvi esse resumo:

“Minha família é muito pobre no Brasil. Muitas vezes, não tínhamos o que comer. Morávamos no interior com 2 (3, 4, 7) irmãos quando conheci meu marido. Eu me casei e vim morar aqui, sofro de saudades todos os dias. Mas, hoje eu posso dar para meus filhos uma vida que eles jamais poderiam ter no Brasil. Hoje, 2 (3, 4, 7) irmãos moram aqui também. Cada um tem seu negócio. Um deles é professor de capoeira (cozinheiro, faxineiro, engenheiro) e, juntos, conseguimos ajudar a mãe e o pai lá no Brasil. Ajudamos também os nossos vizinhos (primos, tios, irmãos)”.

É como se essa coisa de “não desistir nunca” que nós brasileiros temos. É como se essa capacidade de sempre dar conta da realidade, não importa o tamanho do problema. É como se o nosso jeito (não o “jeitinho”) pudesse frutificar e se multiplicar.

E, sentir-se capaz de construir, fazer, moldar, frutificar, não tem preço.

Raul de Freitas Buchi

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