Empregabilidade na Suíça II

Um dos elementos importantes na busca por uma posição de trabalho na Suíça é a Arbeitzeugnis. Cada vez que você passa por uma empresa, por curto ou longo que seja o período de trabalho, a empresa precisa, quando requisitada, te entregar a Arbeitezeugnis. Mas, vamos por partes, antes de explicar exatamente o que é esse documento, vamos entender o processo seletivo na Suíça.

Os suíços são muito atrelados aos processos, suas etapas e procedimentos, daí, em partes, a qualidade de seus produtos e serviços. Com isso, cada tarefa tem seu descritivo de procedimentos, documentos necessários, documentos gerados e tarefas. Ou seja, todos aqueles guias de condutas, de boas práticas de produção, de regulamentação, guardados em inúmeras pastas são levados com absoluta seriedade pelas empresas suíças.

Hoje, isso é uma prática seguida por todas as empresas em todos os seus setores. Essa cultura esta diretamente ligada às seguradoras e a condição de seus prêmios em caso de problemas. Então, essa seriedade na obediência aos manuais, inclusive nos manuais de como produzir manuais, é levado muito a sério porque evita resultados negativos na justiça e junto aos seguros.

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Como psicólogo, tive na faculdade, as disciplinas ligadas aos Recursos Humanos, na época 1997, chamava-se “Psicologia Organizacional”. Também, tive a oportunidade de lecionar essas matérias no curso de Administração (entre 2010 e 2012). E, assim como outros setores de uma empresa, o setor de Recursos Humanos também tem seus processos, documentos, regulamentos, manuais e procedimentos.

Bom, tendo isso em vista, juntamos a rigorosidade com os procedimentos e documentos típica da Suíça, com um processo que é brutalmente burocrático, que é o processo de seleção.

Veja só, quando montamos um dossiê (aqui o candidato precisa montar um dossiê para enviar para as empresas) para a aplicação para uma vaga juntamos vários documentos:

– Uma carta de motivação: Na carta de motivação deve constar o porquê você se encanta com essa vaga, com essas tarefas, nessa empresa, nesse momento do mundo, nesse local da Suíça.

– A carta de aplicação: Direcionada ao responsável pela seleção ou pela vaga, essa carta apresenta brevemente o candidato e a estrutura da candidatura, como encontrou a vaga e quais são suas competências para tal.

– O Currículo: Nele, diferente do que fazemos no resto do mundo, não separamos simplesmente em habilidades e competência versus atividades acadêmicas e profissionais. Aqui fazem-se sessões dentro do currículo: Dados do candidato (com foto recente de boa qualidade e idade?!?!?!), em seguida a sessão de atividades profissionais (constando empresa, cargo, contato e principais conquistas e tarefas desempenhadas), depois vem a sessão de formação acadêmica (desde o ensino infantil até todos os cursos pós faculdade e profissionalizantes), a sessão de idiomas, a sessão de competências pessoais (computação, corte-e-costura), e por últimos, hobbies e atividades voluntárias.

– As Arbeitezeugnis: De todas as empresas (ou pelo menos as mais recentes) citadas na sessão de atividades profissionais.

– Diplomas: Nessa parte, anexam as cópias de todos os certificados e diplomas acadêmicos ou, pelo menos os mais importantes, do certificado do cursinho de Excel aos títulos dos MBA e P.hD.

A maior parte dos sites de busca de empregos têm uma sessão de uploads onde esses documentos podem ser organizados em suas sessões. Aí, quando você aplica para a vaga, precisa apenas redigir uma carta de motivação e outra de apresentação. O pesado dos arquivos já está guardando na nuvem do site. Isso agiliza um pouco. Mas, para pequenas empresas, na maior parte das vezes, é preciso montar um e-mail, com o link que você acessa através do site de busca de vagas, e, com todos esses anexos, enviar a aplicação diretamente para o responsável.

Então, voltando ao assunto original, o Arbeitzeugnis é a declaração feita pelas empresas onde você trabalhou anteriormente. Nele, em geral, constam as atividades desempenhadas, suas conquistas e objetivos cumpridos e uma avaliação sobre sua relação com o trabalho. É um documento complicado, porque é obrigatório no processo seletivo. Então, o que os trabalhadores costumam fazer, é requerem o documento, mais ou menos, anualmente, mesmo que não haja perspectiva de mudança de emprego. Pois, a opinião da empresa pode mudar, após o contrato de trabalho ser interrompido.

A sessão das Arbeitzeugnis é fundamental, pois você será checado em boa parte das referências que oferecer. E, o fato de o documento constar no dossiê, facilita para selecionador e, muitas vezes, evita que ele entre em contato com os empregadores que constam ali, facilitando e agilizando o processo que, para ele, também é longo.

A segunda complicação é que, em geral, quando chegamos do Brasil, quando trazemos declarações das empresas onde trabalhamos, temos esses documentos em português ou traduzidos para as línguas daqui. Isso tira a credibilidade do documento. Além disso, eles consideram importante que você já tenha uma Arbeitzeugnis da Suíça. Ou seja, que já tenha tido um emprego, uma experiência de trabalho por aqui. Desconsiderando, muitas vezes, as experiências de trabalho não européias.

Aí é que entra o rolo compressor, o ciclo vicioso interminável. Como você deve ter lido em post anteriores, a língua nativa é fundamental, é um requisito básico. Mas, alemão, por exemplo, é muito difícil para que fluência mínima seja alcançada sem estar mergulhado em um país que se fale alemão. Então, quando você chega aqui, no mínimo você precisa atualizar o seu alemão. Isso é caro (como tudo na Suíça) e te toma tempo (como tudo na vida).

Mas, junto com isso, na mudança, é como se você tivesse zerado sua experiência profissional. Então, precisa arranjar um emprego para reiniciar com urgência a capitação de fundos para sustentar sua vida. Mas, precisa fazer o curso de alemão. Sem a declaração (que representa experiência prévia na Suíça), grandes empregos empregos são praticamente impossível. Solução: McDonalds, Burger King, bares, limpeza, restaurantes, e outros empregos pesados.

Depois de um tempo, pede-se o Arbeitzeugnis e volta-se a busca por emprego em paralelo.

Só que esses empregos exigem muitas horas de trabalhos para juntar um bom dinheiro e, consomem, portanto, muito tempo e energia. Inviabilizam o tempo para desenvolver a língua nativa na escola, e no trabalho, o alemão é ruim, porque a maioria dos seus colegas também é estrangeiro. Sem o tempo na escola de línguas, uma certificação fica bastante difícil.

O ciclo fica fechado: se eu trabalho, não estudo, sem estudo sem emprego, sem emprego sem declaração, sem declaração…

Uma parcela das pessoas consegue evoluir no alemão simplesmente trabalhando. Esse não é meu caso, sou um pouco tímido e bastante introspectivo, o ambiente de trabalho acaba me fechando. Mas, isso é uma questão bastante particular. O ambiente de trabalho favorece a comunicação e, portanto, o desenvolvimento da língua nativa, nos recursos básicos para sua execussão. Mas, não há tempo para certificação, ela exige as provas de nivelamento e, quase com certeza um bom curso de alemão.

Raul de Freitas Buchi

Swiss Questions

4 thoughts on “Empregabilidade na Suíça II

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