Cresci no Brasil e, como bom brasileiro, aprendi que o ensino superior é uma formação necessária, obrigatória, principalmente para quem quer ficar bem colocado no mercado de trabalho. Enfim, para quem quer ser um funcionário de sucesso na empresa de alguém. Ele também é fundamental para garantir o acesso ao exercício de algumas profissões liberais para as quais, teoricamente, o conhecimento exigido estaria disponível no ensino superior. Médicos, advogados, engenheiros, psicólogos, etc.

Assim, fazer uma faculdade ou universidade, é obrigatório para quem quer se fazer representar por um título profissional.

Já faz muito tempo que deixei de acreditar nesse mito. Durante minha vida, conheci muito pedreiros, que tocavam a obra melhor do que os engenheiros, responsáveis por ela. Conheci muita tia da cantina, melhor conselheira do que o psicólogo da escola, e muita curandeira melhor que médico PhD.

Em termos de riqueza, nem se fala, tive um colega que ficou rico antes dos 25 anos com loja de equipamentos para carros, veja que ele largou a escola na 4º série, depois, já adulto e rico, fez supletivo e, depois dos 30 fez uma faculdade de administração. Mas, quando parou na 4º série, aos 10 anos, foi trabalhar com o pai numa granja em Colombo (PR). Isso, claro, se passou antes do ECA. Por outro lado, o pai dele não era um explorador e escravizador, só era um homem sem escola, que achava mais importante ganhar dinheiro do que saber o nome do imperador asteca.

Aqui na Suíça isso é mais marcante ainda. O ensino público é de altíssima qualidade, e não é fakenews, professores do ensino fundamental são muito bem remunerados. As escolas são superpreparadas, professores bem treinados. O acolhimento ao aluno, estrangeiro ou nacional, é emocionante e afetivo. Mas, o aluno é requerido, puxado, tem que estudar e se dedicar muito.

O ensino médio é dividido em três categoria, grosso modo: um ensino profissional que junta o básico da escola com trabalho na prática; um ensino profissionalizante técnico; e ensino acadêmico que prepara para a universidade.

No final da reta, todos abrem a possibilidade de se fazer uma universidade ou curso superior. Mas, os alunos aos 14 anos precisam escolher (com ajuda dos professores, da família e de conselheiros que o estado fornce) o que querem fazer. Assim, vão sendo direcionados pelo ensino público para o mercado de trabalho, de acordo com suas escolhas e talentos.

Apesar de isso parecer um pouco cedo, sempre é possível fazer mudanças (com algumas dificuldades). Mas, o foco é que, quem não gosta de estudar, quem não gosta de ficar trancado 6 horas por dia em sala de aula, tem boas opções de qualificação profissional, seja como aprendiz ou no ensino técnico.

A universidade é para poucos. Ela exige a prova do matura, uma espécie de prova do Enem, com menos diversidade de conteúdos, mas mais complicada em termos de interpretação de texto e matemática. Então, não importa muito como você fez o ensino médio, com a devida preparação, pode tirar uma boa nota na prova do matura e entrar na universidade. Mas, a proporção de pessoas que busca esse caminho é pequena. A maioria dos estudantes foca em profissionalização no ensino médio. Depois, já no mercado de trabalho, buscam o ensino superior.

Esse período de aprendizagem profissional divide o tempo entre o trabalho em uma empresa para aprender a profissão na prática e, o tempo de escola, onde elementos técnicos são ensinados em paralelo a alguns conteúdos fundamentais. E, esse trabalho é remunerado. Então, além de permitir aprender uma profissão, agrega na renda familiar, desenvolve responsabilidade, compromisso, amadurece o indivíduo. Mas, lembre-se, o mau-caratísmo na Suíça é menor, mas muito menor do que no Brasil, assim, dificilmente esse jovem será explorado em uma carvoaria ou tecelagem.

Esse sistema é muito bom para quem fez todo o processo acadêmico aqui, ou para quem vem para, em tempo de se adequar ao sistema em alguma de suas etapas, tentar um ensino superior por aqui.

Esse processo é o que eles chamam de Ausbuildung. A profissionalização é realmente adquirida através da vida acadêmica. Começa na escola primária e segue por toda a vida. Até o fim da faculdade ou do curso superior é o Ausbuildung (quase sempre com um grau de mestrado). Depois, os doutorados e formações complementares e continuadas (obrigatórias para a maioria dos casos) são o Weiterbuildung.

Os professores do ensino secundário (acima dos 13 anos) e do ensino médio são politizados e protestam com os alunos na rua. São politizados e de esquerda (uma esquerda europeia e não bolivariana ou trotskista). Ensinam os alunos a serem críticos. Faz pouco tempo, foram alunos e professores pedir aumento e melhor qualidade na carga horária escolar.

As crianças saem do secundário com habilidade na língua local, inglês e mais alguma língua suíça. O foco do ensino básico é ler, escrever, falar em público, interpretar eximiamente texto e muita, muita matemática básica. Muito educação cívica (história da Suíça, comportamento social: desde atravessar a rua, andar de bicicleta na rua, manejo do lixo doméstico, respeito aos mais velhos, direitos e deveres cívicos…) embutida em várias disciplinas do currículo normal, como ciências, história e educação física.

O projeto de educação é quase tão bom quanto o do Brasil. A diferença é a real possibilidade de execução do projeto. Com professores bem pagos, diretores eleitos e bem pagos, as escolas recebem o maior investimento. São gerenciadas pela junção do município e do cantão. Cada um colabora e fiscaliza o que deve. A escola é livre e autogerida, mas direcionada e fiscalizada. Professores bem pagos… muito bem pagos… e muito professores… muitos…

O projeto de educação é, politicamente igual. A diferença é a execução. Professores bem pagos…

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