Todo imigrante carrega em si um empreendedor. Todo mundo que sai de sua terra natal em direção a uma vida nova em um país estranho é em última instância alguém que empreende a aventura de uma vida nova.

Mas, nesse texto, gostaria de diferenciar as duas coisas. Convivemos muito com suíços pacientes com nosso alemão chulo, com brasileiros que já eram conhecidos de longa data, brasileiros que conhecemos nas cabeçadas por aqui e portugueses residentes (em verdade, Carine que é simpática, nos aproxima dessa galera). Excluindo os suíços, nativos daqui, podemos dividir o grupo de imigrantes basicamente em dois: imigrantes e empreendedores.

Os empreendedores são aqueles que vieram em busca da economia vibrante e da moeda valorizada. Trabalham de sol-a-sol para garantir a aposentadoria ou a poupança em francos suíços para depois voltar para o Brasil ou para Portugal viver uma vida melhor do que a que tinham anteriormente. Nesse grupo, os brasileiros, por conta das mudanças de leis, diminuíram bastante. Mas, os grupos de Portugueses só aumentam.

O segundo grupo é o que veio de mala e cuia, e imigrou para ficar. Como muitos europeus fizeram em direção ao Brasil nos séculos XIX e XX.

Como brasileiro na Suíça, reconheço a mim e a minha família como imigrantes e não como empreendedores. Somos pessoas que saíram do Brasil em busca de um novo lugar (idealizado ou não) para empreender a vida, em busca de uma nova vida. Trouxemos o que pudemos, incluído sonhos e expectativas com o futuro.

Batalhamos todos os dias pelo bem viver: o dinheiro nosso de cada dia, a integração na comunidade, o aprendizado das regras escritas (leis e normas e das regras não escritas desse novo espaço cultural. Batalhamos com a língua, com as diferenças culturais, com as frustrações e idealizações e com a surpresas de novas coisas boas não previstas.

Enfim, viemos para ficar. Entre erros e acertos, aprender a viver na nova terra e, a partir disso, como fizeram meus ancestrais no Brasil, garantir uma vida melhor para os filhos e uma boa vida para os netos (se vierem).

A chave do sucesso nesse processo, que não é uma expedição empreendida por 20 em busca de dinheiro, mas um processo de desconstrução de um jeito de viver e a construção de um novo modelo, é a integração. Reconhecer, mergulhar, vivenciar a nova cultura na qual se enreda.

Como já disse em outros posts, a maioria dos brasileiros por aqui é mulher, casada com um europeu. E, seja em busca de uma vida melhor, de um mar de ilusões ou por amor, a maior parte delas não veio de mala e cuia. O coração ficou no Brasil, não necessariamente atrelado a um patriotismo, mas sim às pessoas, aos lugares, às comidas, às músicas, ao jeito de viver e conviver. A maioria delas passa o ano inteiro trabalhando para passar 4 a 6 semanas de férias no Brasil curtindo sobrinhos, irmãos, pais.

Ou seja, não são nem imigrantes e nem empreendedores.

São mulheres que construíram laços de 10 ou 20 ou 30 anos com seus maridos europeus, que vivem aqui há esse tempo, tem filhos, enteados, sogros, cunhados, amigos, trabalho, carreira e toda uma vida estruturada aqui. Mas, ao mesmo tempo, não conseguiram abandonar o sonho de voltar para a terrinha como vencedoras, em uma condição de vida melhor do que a que tinha antes. Imigraram sem trazer de todo, seus corações.

Algumas imigraram trazendo seus filhos, que hoje são enteados de europeus, em geral crianças e jovens que, aos 12 ou 13 anos falam 3 ou 4 línguas por conta das escolas suíças. Enquanto as próprias mães, devido as suas condições de origem falam o português, cuja a escrita se perdeu no tempo, e o dialeto alemão local. Jovens e crianças que, pela integração apenas parcial da mãe, acabam ficando em um espaço de identidade muito sofrido.

O português fica carregado de sotaque e com um repertório curto, enquanto o dialeto local também não tem uma forma que o permita se misturar indistintamente com a comunidade. Como se dentro do moleque (a) duas forças contrárias estivessem em briga. Quando o pai permanece no Brasil, e ainda por cima joga pesado com mudança, a questão fica ainda mais difícil. O jovem não percebe, por pura falta de maturidade para isso, as oportunidades que tem ao seu redor na terra nova e, ainda, é seduzido pelas promessas e embalos da terra natal.

Esse jogo conflituoso barra a integração. Para que ela ocorra é preciso uma entrega, é preciso um processo de abandono do anterior. Só que essa experiência pode ser percebida pelo imigrante e pelos que ficaram como desamor. Como uma prova de pouca importância dada ao que ficou no país natal. Mas, não é.

Assim como sair da casa dos pais quando se é adulto não é deixar de amar, integrar-se na cultura para a qual se imigrou, também não é traição, nem abandono, nem desamor. Muito pelo contrário, é uma prova de amor para consigo mesmo. É permitir-se construir uma vida boa ao seu redor.

Assim, libertar-se da culpa de imigrar é fundamental no processo de integração. Libertar a si mesmo e aos seus dependentes da culpa de imigrar é permitir que se enxergue o amor pela terra natal sem a cobertura dos sentimentos de dívida e culpa. É permitir-se amar a nova terra e ter condições financeiras para viajar para a terra natal com dinheiro para se enveredar turística e amavelmente pelo país de origem. É conseguir ajudar as (os) filhas (os) a enxergaram suas oportunidades e futuras na nova terra e ajudá-los a construir laços afetivos que os transformem e nativos da nova terra.

Enfim, é aceitar a nova residência com a terra prometida e se fazer cumprir essa promessa, conquista-la, sem culpa pelo que ficou para traz mas com muito amor e whatsup.

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