Trabalho braçal e imigração - SWISS QUESTIONS
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Trabalho braçal e imigração

Nunca fui cozinheiro, nem em casa nem como trabalho. Passei a cozinhar um pouco depois da separação da primeira esposa, mas no início, fazia as coisas na cozinha muito mais para a filha dar risada das trapalhadas do que realmente para conseguir comer. No fim de maio de 2019 comecei a trabalhar no MC Donalds e, depois de 18 anos trabalhando como psicólogo clínico ou empresário, tive a primeira experiência com trabalho braçal.

Aos 43 anos, tendo vivido até então, basicamente para os livros e os vídeos-games (sempre fui esportista, mas não fanático) nunca tinha queimado caloria fazendo força no trabalho. Mas, desde maio, comecei a puxar caixas, carregar peso, fatiar, cortar, rechear, grelhar e, mais estranho, tudo isso em alemão. Uma experiência completamente nova.

Foram 3 meses de MC Donald’s e achei um novo emprego novo em um pequeno e charmoso restaurante, coincidência ou não, na academia onde pratico escalda (Boulder). O Minimum Boulder bar e restaurante é pequeno só no tamanho da cozinha. São dois cozinheiros, um no fogão e forno e outro na preparação dos pratos, e eu na faxina, na limpeza, carga, descarga, descasca, fatia, busca, traz, leva e ergue, raspa e arruma.

O restaurante serve uma média de 90 refeições complexas por dia e mais uma infinidade de sopa e salada. São em média 190 peças de louça de uso dos clientes para lavar por dia, meia centena de panelas, bandejas, cumbucas e caixas plásticas e metálicas não consegui contar. Mas, o mais divertido não é o trabalho em si, mas a língua.

Enquanto no MC Donald’s o idioma principal era o alto-alemão (por ter em seu corpo de funcionários praticamente só estrangeiros), nesse restaurante em Zürich, a língua predominante é o dileto suíço de Zürich, recheado de inglesíssimos e italianismos (são quase todos estrangeiros que cresceram desde muito pequenos em Zürich). Ou seja, o restaurante tem certamente um dialeto próprio no serviço.

Desse dialeto, não entendo nada e coisa nenhuma, principalmente se dito fora de contexto. Isso torna o recebimento de pequenos comandos simples uma grande confusão que acaba sendo sempre resolvida com o inglês ou o italiano (muito próximo do português). As conversas, quase sempre recheadas de contextos e gestos, são compreensíveis, mas os comandos são, muitas vezes, um inferno irritante para ambos os lados, comandado e comandante.

No período do MC Donald´s já tinha aceitado e gostado da ideia de ter um trabalho mais corporal do que intelectual. Até porque, fora do Brasil, esse tipo de trabalho não leva o estigma construído pelo período escravocrata, então os salários são bons e não há uma visão pejorativa na comunidade.

Assim, ganhando um bom salário, tenho corrido atrás de reaprender o nome de todos os utensílios de cozinha em alemão nos intervalos do serviço (o que não resolve, porque no dialeto local tudo tem outro nome). Assim, os comandos podem passar a ser mais compreensíveis e a comunicação na cozinha pode melhorar com o tempo.

Aqui na Suíça, como nos EUA, o preço da energia elétrica não ofende o consumidor, com isso, o trabalho de lavar a louça implica muito mais em organizar tudo para que a máquina faça uma boa limpeza. Portanto, o serviço não destrói as costas, nem corrói os dedos e a alegria de viver. Aliás, estou escrevendo esse texto no intervalo das 16hs, animado e pronto para 30 minutos de escalada no Boulderhalle.

Além disso, como procuro ser polido, com os meus “bons dias” e “obrigados”, como procuro não falar nada quando não for para falar em alemão, os outros funcionários não têm ressalvas com a minha inabilidade com o dialeto. Em partes porque percebem meu esforço de falar alemão e em partes porque não fico tagarelando em inglês ou português, respeitando o idioma local. Como fruto dessa boa conexão, algumas risadas e muitas lições têm surgido.

Quase todos os dias algum deles tem algum esclarecimento sobre algo no dialeto, alguma expressão idiomática local ou uma frase de efeito no dialeto local para me ensinar. Além dos meu dois Chefs tenho mais 11 colegas que se revezam como garçons e baristas ao longo da semana. Como muitos deles já visitaram o Brasil ou gostariam de visitá-lo (umas das colegas é uma amigona brasileira/italiana), recebo com frequência alguns “Bom Dia” e “Obrigado” em português!!!

Até começar a trabalhar aqui, nunca tinha pisado em uma cozinha de restaurante (visitei uma vez o Restaurante Madalosso para fazer um trabalho para a faculdade), então tudo ali é novidade. O Chef é bastante cauteloso e paciente, tem tido a delicadeza de corrigir minhas tolices com respeito e bastante suporte (afinal, sou bastante produtivo na limpeza, apesar de cortar mal as batatas), garantindo assim que os pratos sejam preparados com a qualidade que ele pretende que o restaurante represente.

A quantidade de informação que precisa ser absorvida é enorme e a força física necessária para esse tipo de função era inimaginável para mim. Nunca imaginei que pudesse ficar fisicamente tão cansado. Até pouco tempo atrás, o cansaço era uma experiência muito mental. Cansado de pensar, de planejar, quase nublado, mas fisicamente inteiro.

Hoje, com o cansaço é físico, a mente continua alerta, as emoções continuam positivas. E, essa é a parte que mais gosto nessa mudança de área profissional. Minha mente tem energia para mim, coisa que nos últimos anos não foi possível experimentar.

Começo com esse relato tão positivo porque a área de hotelaria, catering e restaurantes é uma das áreas que mais contrata na Suíça. Verdade que muitos contratos são sazonais (inverno nas áreas de ski e no verão nas áreas de treking e nos lagos). Mas, ainda assim, são empregos atrativos financeiramente e de trabalhos que não exigem uma carga de experiência alta ou treinamento específico.

Para que se tenha uma ideia, uma das principais região de turismo da Suíça é Zermatt, uma cidade alpina, próxima ao Matterhorn. Lá o turismo funciona o ano inteiro, no inverno com o ski e nas demais estação, com turismo de aventura e caminhada. Em Zermatt, 70% dos trabalhadores são sazonais e, vindos de Portugal, revezam-se de acordo com a sazonalidade. Para alguns deles, o ganho é suficiente para ficar até 4 meses sem trabalhar em Portugal.

Quando vencemos alguns preconceitos tipicamente brasileiros e escravocratas, principalmente em relação ao trabalho braçal, abrimos um mar de liberdades e possibilidades para o processo de imigração. Muitos brasileiros que almejam emigrar para países mais estáveis e menos violentos, deixam de fazê-lo por conta do status social das profissões que terão que enfrentar.

Minha experiência, vivida por necessidades descritas em outras postagens e não por pura opção, me mostrou que essa abertura é possível, agradável e surpreendentemente desenvolvedora. Além disso, me garante a estabilidade que minha família precisa.

https://www.jobs.ch/en/vacancies/catering-food-tourism/

Swiss Questions

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