Vai emigrar? Procure emprego no MC Donalds -

Quando viemos para a Suíça, viemos em família. Viemos todos as 5 pessoas apostando na empresa que havíamos aberto e que, vai indo bem, graças ao esforço de um bom time. Mas, em 2019, a empresa, da qual sou sócio, precisava guardar dinheiro para reinvestir num futuro próximo. Como meu trabalho na empresa é todo no computador e, em geral, excetuando-se algumas reuniões, faço tudo em mais ou menos duas horas por dia, acabamos decidindo por diminuir a minha renda para poder guardar um pouco mais de capital.

Assim, precisei procurar outro trabalho. Meu alemão é parco, leio bem, entendo bem, mas falo muito pouco. Fiz onze meses de curso, terminei o nível B2, mas em casa falamos português e, até então, no trabalho, só falava inglês, então falo alemão só o suficiente para me comunicar no básico. Dessa maneira, um trabalho ou ocupação compatível com as minhas “qualificações” e experiências é bastante difícil.

Seguindo a experiência de outros brasileiros por aqui, procurei a RAV (escritório que atende aos desempregados). Lá, a ajuda foi pífia. Mas, de lá, fui encaminhado para o escritório de profissões, cursos universitários e carreira (sim, aqui temos uma estrutura organizada pelo cantão, para dar um “coaching” na carreira). Nesse escritório obtive algumas informações interessantes e recebi uma boa organizado no meu currículo.

Read here in English!!!

Com essa reorganização do meu currículo, em duas semanas, seguindo de novo outros brasileiros, estava eu trabalhando no MC Donalds.

Calcule só: um mestrado em educação, duas pós-graduações, psicólogo de consultório por 17 anos e empresário, em questão de dois meses, agora estava limpando o chão do MC Donalds e fazendo Big Mac´s. Parece um fundo de poço e, até o primeiro dia de trabalho, foi assim que me senti.

Um soco no estomago, como se tudo que eu semeei na vida, de nada tivesse valido.

Puro preconceito da minha parte.

No dia 16 de agosto de 2019 completei dois meses no MC Donalds trabalhando como assistente de produção. Eu comecei na linha de produção do Hamburguer, Cheeseburger e Big Mac. Nessa linha de produção, também fazemos (sim, ainda trabalho lá enquanto escrevo esse post) o Doble Cheeseburguer, o Doble MC Bacon e a linha Gluten Free. Na loja onde trabalho, no fim desse mesmo corredor de produção, fazemos o Big Tasty e Big Tasty Bacon e o Royale Cheeseburguer. Não visitei a produção de outras lojas, não sei se são iguais. Mas, no lado oposto temos o BOP, onde são produzidos os demais sanduíches, e todas as frituras.

Meu preconceito caiu por terra. Trabalhar no MC Donalds tem sido uma experiência muito legal.

A coisa sensacional do MC Donalds é a organização do processo de trabalho: produção em massa de alimentos para venda imediata. A organização do processo de produção é tão bem-feita, tão bem pensada que, se você demora mais que alguns segundos para resolver uma etapa qualquer do processo, você está errando movimentos, fazendo, literalmente, movimentos que não precisaria estar fazendo.

A organização é tanta, o processo tão simples (claro, também, absolutamente repetitivo) que em 3 dias eu já conseguia rechear o sanduiche no mesmo tempo em que os hamburgueres grelhavam: 41 segundos. Para você ter uma ideia, hamburgueres e cheeseburguers são feitos, em geral em lotes de 8. Então, recheiam-se 8 pães enquanto 8 hamburgueres grelham no grill.

No fim de 15 dias, eu já produzia todos os sanduiches do corredor e, fazia-os bem-feitos e bonitos.

Quem me conhece sabe, sou uma pessoa dos livros, não sou uma pessoa habilidosa com trabalhos manuais e, só comecei a cozinhar depois do fim de meu primeiro casamento. Por tanto, não sou uma pessoa típica para o trabalho culinário. O mérito para essa repentina competência produtiva é da metodologia de trabalho da franquia.

A metodologia de trabalho do MC Donalds é quase absolutamente perfeita. Funcional e fácil de ser aprendida, ela permite que, com um mínimo de atenção e concentração, seja possível dominar o processo produtivo.

Foi assim que, em 15 dias, eu me tornei um bom funcionário. No mês de julho, consegui fazer um dinheiro razoável cobrindo férias de colegas e, aceitando todas as possibilidades que me ofereceram de trabalhar um pouco mais. Tive dias em que trabalhei 10 horas, com pausas a cada duas horas.

Na loja em que trabalho, quase todos os funcionários são estrangeiros. Os Suíço que trabalham lá, em geral, trabalham no caixa e no atendimento ao público e são muito jovens (18, 19 anos), enquanto nas diversas etapas de produção, os trabalhadores são estrangeiros: Tâmiles (Sri Lanka) e Albaneses são as etnias predominantes na minha loja. Mas, trabalho com Húngaros, macedônios, italianos, dominicanos, bósnios, tailandeses, indonésios e eu, brasileiro/suíço.

Todos com situações de vida típica de imigrantes: procurando um lugar melhor para si e para as futuras gerações.

Conto uma história breve de uma colega de trabalho. 58 anos, faltando pouco para uma aposentadoria na Suíça, essa senhora veio do Sri Lanka com uma criança no colo e outra no ventre, e junto com o marido, fugiam da guerra que havia estourado em seu país.

Hoje, 20 e tantos anos depois, ela completou 7 anos de MC Donalds. O dinheiro que ela ganha por lá, trabalhando muito e sendo uma excelente professora para os iniciantes, em todos os processos, foi investido na faculdade dos dois filhos: um se forma em medicina no próximo ano e o outro em engenharia em dois anos. Da guerra para dois diplomas em profissões de ponta na suíça.

Que imigrante!

Outra história muito bonita: minha gerente da loja, veio da Servia (provavelmente fugindo da guerra, o pessoal da Sérvia e da Albânia não fala sobre isso e eu também não pergunto) com 14 anos. Aprendeu alemão na escola de integração. Seu primeiro emprego foi o MC Donalds. Aos 43 anos, foi realocada na loja em que eu trabalho para melhorar a qualidade dos processos e levantar a loja. Em dois meses, ela colocou a loja nos padrões e nas expectativas da franquia. 3 meses depois de sua chegada, entro eu na loja, que tristeza para ela. Mas, que história ela carrega: da guerra para a referência de qualidade em gerência. Ela é rígida, mas absolutamente gentil e educada. Só grita com os boletos bancários, assim como eu!!!!

O MC Donalds tem sido uma opção que superou em todas as possiblidades o meu preconceito. Como cliente, ouvia os gritos na linha de produção. Achava que aquilo deveria ser o fim do mundo. Mas, devido ao ruído geral da produção, a correria geral da produção e a energia que é deslocada para se alcançar a produção, o tom de voz fica mais alto porque a energia fica alta.

Muitas vezes, discussões ríspidas acontecem, principalmente, quando o alemão não é bem falado ou compreendido (o que torna tudo muito mais perigoso, porque muitas vezes, é muito engraçado). Mas, há um entendimento global de que, estamos todos no mesmo barco, e a paz impera na sequência.

Gerentes varrem o chão e lavam bandejas. Sim, gerentes fritam batatas e, muitas vezes, vem para a produção fazer sanduiches e dar suporte para a linha. Gerentes limpam gordura das fritadeiras, tiram o lixo, juntam bandejas e cortam tomates, descarregam entregas e, acima de tudo, controlam o sistema de produção. Enfim, sabem que estão lá para o que der e vier.

Todos os gerentes de turno e mais a gerente geral, todos sabem meu nome. Trabalho lá com um contrato de 20 horas por semana (meio expediente) e todos sabem meu nome e sobrenome. Não, não sou um empregado modelo, trabalho bem, mas não sou referência. Os gerentes sabem o nome de todos os 69 funcionários que se revezam nos diversos turnos. Os gerentes carregam em si a visão de que precisam dar o exemplo de trabalho, educação e respeito.

Os mais velhos na loja são tratados com deferência e respeito, um senhor, também do Sri Lanka, trabalha nessa loja há 30 anos!!! Foi um dos primeiros funcionários a trabalhar lá. Aprendi muito com ele e, dentro da loja, é uma figura lendária. A noção de igualde, de democracia, de direito individual está presente sem que se faça perder a noção de respeito ao cargo e de responsabilidade individual.

Todos têm seus deveres frente a missão do MC Donalds. Todos, dentro desse sistema organizacional, dentro da metodologia de trabalho, fazem a sua parte. Ninguém é mais do que ninguém, mas, o gerente tem o dever de controlar os horários, apesar de também limpar o chão quando necessário.

Estamos todos no mesmo barco: Pessoinhas quaisquer tentando fincar as ancoras em terras novas. Na minha loja especificamente: imigrantes em busca de um espaço melhor para suas vidas e de seus descendentes.

Trabalhando no MC Donalds pude entender na prática aquilo que chamamos de comunidade de prática, o grupo de pessoas que compartilham entre si um objetivo comum, e que, para esse objetivo, precisam compartilhar um trabalho extremamente puxado, metódico e que precisa ser feito com um grau de excelência ímpar (lembro ao leitor que minha loja é na Suíça, os estandartes da franquia precisam ser seguido em 100%). Para isso, além de compartilhar esse objetivo comum, é preciso compartilhar o conhecimento necessário e a técnica advinda desse conhecimento, para que, assim, todos consigam alcançar o padrão, o estandarte de qualidade almejado.

Fica implícito na loja que, todos precisam ter a mesma qualidade, a mesma capacidade e, o mesmo conhecimento sobre todos os processos. Esse espaço de aprendizagem fica disponível no espaço entre as pessoas, como se ali houvesse uma prateleira de apostilas com “Manuais de boas práticas de produção” para serem lidos. Não é preciso curso, só é preciso perguntar, com viver.

Hoje, dois meses depois de ter começado, tenho o prazer de acompanhar dois “novatos” em suas jornadas na produção: “ponha a alface assim, por favor” (sempre com por favor e obrigado). E, mais, ficar satisfeito de ver a pessoa colocando a alface como recomendado pelo padrão, pelo estandarte. Ou seja, ver a pessoa tornar-se parte do time.

Claro, saio muito cansado da loja pois o trabalho é pesado, o salário é não é o melhor, mas tem quebrado um galhão.

Mas, trabalhar no MC Donalds, mais do que um plano de carreira ou um seguro para o futuro, tem sido uma experiência ótima, realmente muito prazerosa e um excelente começo nessa jornada fora da minha própria empresa.

Mas, de longe, como bom psicólogo que imagino que eu sou, o melhor do MC Donalds são as pessoas, suas histórias e experiências.

Obrigado, Salamat, Nandri, Falemndreit, Ravla, Köszönöm, Khxbkhun, Grazie, Gracias, Thanks

Raul de Freitas Buchi

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